segunda-feira, 21 de junho de 2010

Poesia Pagã I

Cheguei em casa e escutei música alta vinda da vitrola, que ficava na estante do meu quarto. Minha esposa estava no clube de costuras e não poderia haver ninguém alí, a não ser... Leslie, minha sobrinha. Subi as escadas e parei em frente à porta fechada, com receio e um pouco nervoso, bati algumas vezes na porta e de repente ela abriu, vestindo uma camisola azul celeste. Perguntei à ela o que fazia alí com aquela música tão alta. Então, puxou-me para dentro do quarto e trancou novamente a porta. Subiu na cama e começou a pular, espalhando um pouco de terra pelo lençou limpo, por conta de sua sapatinha que usava pela manhã, enquanto brincava com sua poodle de estimação. Pedi à ela que as tirasse, e em seguida me respondeu, em tom de deboche, para que eu fizesse isso por ela. Sentei na beirada da cama e ela apoiou o pé no meu colo. Segurei-o delicadamente, tirando sua sapatilha e olhando para sua perna, de pele tão branca. Logo depois, Leslie continuou a pular e dizia para eu fazer isso com ela. Mas não, eu não queria... Não devia. Então, abaixou-se e sussurrou no meu ouvido esquerdo, paravras como "Venha comigo. Vou cuidar de você, proteger você. Calma, acalme-se...". Senti algo que nunca havia sentido antes, um arrepio que subia pela minha espinha e eu suava frio. Vendo minha reação, a mocinha dos cabelos ondulados começou a rir e se jogou na cama. Para ela, aquilo era uma diversão. Para mim, a perdição. Levantei-me e falei em tom alto e firme, para ela se arrumar, pois minha esposa já estava para chegar e o jantar seria servido. Olhou para mim como se estivesse irritada com a minha atitude e saiu, trancando-se no banheiro. E eu fiquei alí, no quarto, parado, pensando no que havia me metido. Os pais dela haviam morrido há três meses, e eu não poderia deixar a filha de minha irmã, desamparada em algum orfanato. Ela saiu do banho com a toalha enrolada na cabeça e um vestidinho branco rendado. Estava na hora do jantar, ela sentou-se na cadeira ao lado e soltou os cabelos, que balançavam levando um certo perfume de flores ao meu olfato aguçado. Cada um de seus fios de cabelo, ainda molhados, umedeceram seus ombros, revelando pelo vestido, a alça de sua lingerie cor-de-rosa. Aquela mocinha estava me fazendo perder a cabeça. Eu me sentia um louco, um monstro. Mas minha respiração ofegava quando ela se aproximava com todo seu jeito, mais doce que cristais de açúcar. Eu ainda amava minha esposa. Afinal, estavamos juntos há sete anos. Porém, minha cabeça, meu corpo, meus sentidos, estavam me deixando completamente confuso e desesperado. Aquilo estava errado, muito errado. Da pior maneira possível. Mas... Como eu queria...


Baseado em: Come To Me - Björk

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