segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Crepúsculo de Nápoles I

Pela minha janela, espero por alguns minutos ela aparecer em sua sacada. São cinco horas da manhã. Ela sai para fumar seu tabaco matinal, cujo ela mesma enrola. Lá está. Eu a vi chegando nessa madrugada. Descalça, segurando seu scarpin na mão direita, tentando ajeitar os cabelos totalmente bagunçados e sujos. Ela ainda está com a maquilagem borrada, como se houvesse levado uma porrada nos seus olhos cansados. A noite foi longa. Cinco horas e quinze minutos. Ela entra em seu apartamento e busca uma xícara de café. Ela vira a xícara e a cafeína escorre pela rua. Deveria estar amargo, talvez frio. Ela apaga o cigarro e retorna ao apartamento. Escuto uma música. É "How Soon Is Now?", dos Smiths. "Eu sou humano e preciso ser amado, como todos precisam", diz Morrissey em sua canção. Ela precisa. Cinco horas e trinta e nove minutos. A música começa a tocar novamente e ela volta à sua sacada. Vestida com uma camisola branca, levemente molhada e acende mais um cigarro. Ninguém na rua. Ninguém a vê. Apenas eu, mas ela não sabe. Cinco horas e cinquenta minutos. Consigo ver o canto esquerdo de sua cama. Ela se joga e observo o esmalte preto nas unhas de seus pés. Acho que ela adormeceu. Seis horas da manhã. O Sol começa a brilhar, ela não.

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